Cálculos de Incerteza
Como o CalibraFácil calcula a incerteza de medição conforme o GUM (JCGM 100:2008) — Tipo A, Tipo B, combinação, graus de liberdade efetivos e fator de abrangência.
O CalibraFácil realiza os cálculos de incerteza de medição seguindo o GUM (JCGM 100:2008) — o guia internacional para expressão de incerteza de medição. Esta página descreve a metodologia aplicada nos cálculos, permitindo que responsáveis técnicos e gerentes da qualidade compreendam e validem os resultados apresentados nos certificados.
A validação formal do motor matemático está publicada em Validação do Motor Matemático, com método, escopo, evidências e referências normativas. O pacote em produção é @calibra-facil/math-engine versão 0.2.4.
Metodologia GUM
O motor implementa propagação de incertezas de primeira ordem conforme o GUM, combinando avaliações Tipo A e Tipo B para obter a incerteza expandida do resultado de medição.
Incerteza Tipo A (avaliação estatística)
Para calibrações com séries de leituras repetidas, o motor calcula:
Média aritmética:
Desvio padrão experimental:
Incerteza padrão da média:
Com graus de liberdade .
São necessárias no mínimo 2 leituras para a avaliação Tipo A.
Incerteza Tipo B (avaliação não estatística)
Para contribuições de incerteza provenientes de certificados de calibração, especificações do fabricante ou resolução do instrumento, o valor informado é convertido em incerteza padrão usando o divisor da distribuição correspondente:
Onde é o meio-intervalo informado e é o divisor da distribuição.
| Distribuição | Divisor () | Quando usar |
|---|---|---|
| Normal | informado no certificado | Certificados que informam incerteza expandida com fator |
| Retangular / Uniforme | Resolução, especificações do fabricante, tolerâncias | |
| Triangular | Quando valores centrais são mais prováveis que os extremos | |
| Em U (U-shaped) | Histerese, variações cíclicas | |
| Arcsen | Oscilações harmônicas amostradas em fase aleatória | |
| Customizada | divisor explícito | Casos não cobertos pelas distribuições padrão, com justificativa documentada |
Quando o certificado do padrão informa incerteza expandida com fator , o motor converte automaticamente: .
Os componentes Tipo B são configurados no Construtor de Métodos.
Incerteza combinada
Todas as contribuições são combinadas pela soma em quadratura, conforme a Equação 10 do GUM, incluindo termos de correlação quando aplicáveis:
Onde é o coeficiente de sensibilidade — calculado simbolicamente pelo motor a partir da fórmula do método, ou fornecido explicitamente pelo autor do método quando necessário.
O motor aceita relações de correlação e covariância entre grandezas de entrada, com validação de matriz positiva semidefinida (PSD). Quando todas as grandezas são declaradas independentes, os termos cruzados se anulam e a expressão reduz-se à soma em quadratura simples.
Graus de liberdade efetivos
Para garantir cobertura correta — especialmente com amostras pequenas — o motor calcula os graus de liberdade efetivos pela fórmula de Welch-Satterthwaite:
O resultado fracionário é truncado para o inteiro inferior. Essa escolha é conservadora: para um fixo, um menor produz um maior pela tabela t-Student e, portanto, uma incerteza expandida maior. Truncar (em vez de arredondar) garante que não seja subestimado. A regra é a do GUM JCGM 100:2008, §G.4.1.
Incerteza expandida e fator de abrangência
A incerteza expandida é:
O fator não é fixo em 2,0. O motor calcula a partir do quantil da distribuição Student-t com base nos graus de liberdade efetivos e na probabilidade de cobertura informada.
A probabilidade de cobertura é arbitrária — qualquer valor em é aceito. As escolhas mais usadas em laboratórios de calibração:
| Probabilidade | para | Notas |
|---|---|---|
| 95,00% | Convenção em algumas áreas | |
| 95,45% | Convenção em calibração; convergência exata para com grande, alinhada à EA-4/02 | |
| 99,00% | Alta confiança | |
| 99,73% | "Três sigma" |
Exemplo prático
Para e probabilidade de cobertura 95,45%, o motor usa (não ). Isso impede que a incerteza expandida seja subestimada em amostras pequenas.
Extrato da tabela t-Student (95,45%):
| 1 | 13,97 |
| 2 | 4,53 |
| 3 | 3,31 |
| 5 | 2,65 |
| 10 | 2,28 |
| 20 | 2,13 |
| 50 | 2,05 |
| 2,00 |
Funções não-suaves no modelo de medição
A propagação GUM de primeira ordem assume que a função do mensurando é diferenciável em torno do ponto de operação. Funções não-suaves — abs, floor, ceil, round, min, max — quebram essa hipótese.
O motor rejeita modelos que usem essas funções na propagação GUM, a menos que o autor do método:
- forneça coeficientes de sensibilidade explícitos para todas as grandezas de entrada (substituindo a diferenciação simbólica), e
- declare expressamente a aceitação dessa configuração ao compilar o método.
Modelos fortemente não-lineares ou com descontinuidades exigem avaliação por método independente (por exemplo, Monte Carlo, conforme GUM Supplement 1 — não implementado pelo motor).
Determinismo e auditabilidade
O motor opera em modo decimal/racional determinístico para literais decimais e aritmética básica (soma, subtração, multiplicação, divisão, potência inteira). Funções transcendentais (sin, cos, exp, log) e quantis Student-t usam IEEE-754 double-precision do JavaScript.
Cada cálculo emite, além do valor numérico:
- JSON canônico com a fórmula normalizada, AST, entradas, parâmetros e resultado;
- Fingerprint FNV-1a 64-bit sobre o JSON canônico — identificador estável da execução, embutido no snapshot da calibração;
- a versão do motor (
ENGINE_VERSION) em uso.
Esses três artefatos permitem reconstrução determinística e correlação de resultados entre execuções e em auditorias. Detalhes em Rastreabilidade.
Unidades
Unidades são tratadas como metadados textuais. O motor não realiza álgebra dimensional nem conversões automáticas — a coerência dimensional do modelo é responsabilidade do autor do método. Em campos do construtor de métodos, as unidades aparecem como rótulos e devem ser consistentes na configuração do método e nas leituras coletadas.
Limitações declaradas
- Propagação de primeira ordem. Modelos fortemente não-lineares na vizinhança do ponto de operação podem exigir Monte Carlo (não implementado).
- Funções não-suaves (
abs,floor,ceil,round,min,max) só são aceitas na propagação se acompanhadas de coeficientes de sensibilidade explícitos. - Sem álgebra dimensional. Unidades são metadados; a coerência é responsabilidade do projeto do método.
- Quantil Student-t para é tratado como assintótico à distribuição normal ( para 95,45%).
- Funções transcendentais e quantis usam IEEE-754 double-precision; os limites de precisão correspondentes valem.
Referências
- JCGM 100:2008 (GUM) — Evaluation of measurement data — Guide to the expression of uncertainty in measurement. Em particular, §G.4 (graus de liberdade efetivos) e §6 (incerteza expandida).
- JCGM 200:2012 (VIM) — International vocabulary of metrology — Basic and general concepts and associated terms.
- ISO/IEC 17025:2017 — cláusula 7.2.2 (validação de métodos), incluindo 7.2.2.1 (técnicas) e 7.2.2.4 (registros de validação).
- EA-4/02 M:2022 — Evaluation of the Uncertainty of Measurement in Calibration.
Templates e Numeração
Como criar, validar, publicar e atribuir templates de certificado a serviços e métodos. Inclui também a numeração sequencial dos certificados emitidos.
Validação do Motor Matemático
Como a CalibraFácil valida o motor de cálculo de incerteza distribuído na plataforma — método, escopo, evidências e referências normativas.